O presente trabalho tem por objetivo analisar a trajetória discursiva da Base Nacional
Comum para a Formação de Professores (BNC-Formação), a partir dos documentos
produzidos: por instâncias governamentais, pela Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Educação (ANPED), e por outras entidades representativas, entre 2018 e
2021. A análise é orientada por um sentimento de valor da coisa pública como direito e
como possibilidade de transformação, a partir do trabalho docente, pondo em diálogo
diferentes referenciais em uma perspectiva discursiva. Para tal, se baseia em reflexões do
campo da Análise do Discurso (AD), como as noções de gênero discursivo,
(MAINGUENEAU, 2001, 2015), interdiscursividade (MAINGUENEAU, 2008, 2015) e
os implícitos discursivos (DUCROT, 1987), considerando o político como dimensão do
social na construção de políticas educacionais (BALL, 2020; FREITAS,
2012,2014,2016), com destaque à profissionalização docente (CONTRERAS, 2012;
TARDIF e LESSARD, 2012). A partir dos “núcleos dialógicos”, a análise deu
visibilidade aos aspectos socioeconômicos, ideológicos e curriculares, tanto no que tange
às reformas, quanto ao estabelecimento das competências profissionais (LAVAL, 2019,
MACEDO, 2019), baseadas em discursos de organismos internacionais, representados
por agências multilaterais de filantropia (BALL, 2020). Foi possível identificar também
dimensões de uma crise curricular, com base nas rupturas da disciplinaridade (LOPES,
2008; VEIGA-NETO, 2008), e das identidades (HALL, 1997,2000; WOODWARD,
2000). Destarte, a Educação em Ciências, como comunidade científica, apresenta suas
especificidades, como as relações entre os níveis de escolarização e as áreas de
conhecimento, afetadas pela Reforma do Ensino Médio e pela Base Nacional Comum
Curricular (BNCC) (JÚNIOR; DE HOLANDA CAVALCANTE; OSTERMANN, 2021;
RODRIGUES, PEREIRA e MOHR, 2020, 2021). As análises sinalizaram tendência à
homogeneização curricular, ancorada no modelo neotecnicista de formação e a
fragmentação da docência, pela regulamentação de suas etapas por meio de documentos
distintos, além da subordinação formativa da BNC-Formação em relação à BNCC. Tais
elementos engendram uma pseudoprofissionalização marcada pela desprofissionalização,
por meio de: i) importação de competências profissionais; ii) ausência de participação das
entidades formadoras e representativas; iii) incorporação expressiva de pesquisas
realizadas por agências multilaterais, baseadas em modalizações de asserções e de fontes,
por meio de implícitos discursivos e abordagens superficiais; iv) apagamento das políticas
de valorização docente; v) desresponsabilização do Estado, com a proposta de formação
ao longo da vida (derivada do “long life learning”), característica da pedagogia self
making, que diante da precarização, se converte na constante necessidade de se
“reinventar”. Além disso, percebeu-se um reducionismo da base de conhecimentos na
qual se define o Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (Pedagogical Content
Knowledge – PCK) (SHULMAN, 1987- 2014) à BNCC, além de contradições quanto à
necessidade das pesquisas da prática e integração universidade/escola, caracterizando um
esvaziamento teórico.