A Atenção Primária à Saúde (APS) é a principal coordenadora da Rede de Atenção à Saúde (RAS), sendo instalada o mais próximo possível da moradia das pessoas para facilitar o
acesso à saúde, garantido a universalidade, equidade e integralidade (Ministério da Saúde,
2011). Na literatura, há poucos estudos abordando os estereótipos de médicos da APS em relação aos pacientes com sintomas somáticos. Além disso, de acordo com Gureje et al.
(1997), o transtorno de somatização tem a prevalência de 20% na APS, podendo chegar a níveis mais altos ao utilizar o conceito de transtorno de somatização expandido
(subsindrômico). A importância em abordar esse tema se dá, não só pela prevalência desses atendimentos na APS, mas na melhoria do atendimento desses pacientes, garantindo os princípios do SUS, ao compreender os estereótipos que os médicos detêm em relação a esses indivíduos têm seu sofrimento pouco compreendido. O presente estudo teve como objetivo
principal compreender os estereótipos atribuídos por profissionais médicos da Atenção
Primária à Saúde (APS) aos pacientes com sintomas somáticos. Os objetivos específicos foram: levantar os estereótipos mais utilizados pelos médicos atuantes APS como forma de identificação desses pacientes; identificar as principais reações emocionais que esses pacientes provocam nos médicos; investigar a percepções de causalidade que os profissionais possuem em relação aos sintomas somáticos; avaliar a dificuldade pessoal/ profissional dos médicos em lidar com essas queixas. Em uma amostra de dez médicos atuantes na APS por,
no mínimo três anos, foi realizada uma entrevista semiestruturada e individual, na qual aplicou-se um questionário para caracterização sociodemográfica dos participantes e uma vinheta com a descrição do caso clínico de um paciente com sintomas somáticos. Em seguida, foram feitas quatro perguntas abertas com o intuito de se alcançar os objetivos descritos anteriormente. Os resultados foram analisados conforme a proposta metodológica
da Análise Temática de Braun & Clarke (2006), e dela depreendeu-se principalmente que os médicos da APS tendem a estereotipar negativamente os pacientes com sintomas somáticos, e que estes suscitam sentimento, afetos e emoções negativas nos médicos, consequentemente,
há uma dificuldade pessoal e limitações profissionais e técnicas no manejo e abordagem desses pacientes. Já a percepção de causalidade dos sintomas somáticos, não se mostrou
sugestionada pelos estereótipos negativos. Dessa forma, pode-se concluir que estes pacientes despertam emoções negativas nos médicos, que são pouco reconhecidas por eles, mas que geram uma sobrecarga física e emocional significativa, deixando-os sob o risco de desenvolvimento de transtornos mentais. O desejo de distanciamento e a responsabilização do
paciente pelos seus sintomas, vêm como consequência dessa sobrecarga que reverbera no
paciente. Este estudo serve de alerta para a necessidade de mudanças no ensino médico, onde
o autoconhecimento e o autocuidado devem ser prioridades para a formação do profissional e,
consequentemente, de um bom vínculo médico-paciente.