Nos últimos anos, tanto no Brasil quanto no mundo, observou-se um aumento da fome e da insegurança alimentar, que se agravaram especialmente com a pandemia de Covid-19, em 2020, e, no caso de países como o Brasil, com as desregulamentações de governos de direita. Em meio a esse cenário, o agronegócio brasileiro, que continua acumulando recordes de exportação e faturamento, se coloca como o responsável por “alimentar o mundo” e por garantir a “segurança alimentar global”, em um discurso que em muito se assemelha com a construção internacional do conceito e os debates em torno da necessidade de desenvolvimento dos países, associando a segurança alimentar com o crescimento econômico e o comércio agrícola mundial. Frente a essa contradição, entre um agronegócio com recordes sucessivos de exportação e faturamento e níveis cada vez menores de segurança alimentar no Brasil, o presente trabalho tem por objetivo analisar como o agronegócio brasileiro constrói sua narrativa alimentar, pautada no conceito de segurança alimentar global, como forma de legitimar sua atuação política e reforçar sua importância para o país. Os objetivos específicos são: analisar a construção do conceito a nível internacional, a partir de sua associação com o debate sobre desenvolvimento, e sua inserção nacional; compreender o contexto e as formas através das quais a segurança alimentar foi mobilizada pelo agronegócio brasileiro quando do início da conformação deste setor; e analisar como a segurança alimentar é utilizada atualmente pelo agronegócio, a partir de seu agenciamento pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG). Para cumprir com tais objetivos, foi realizada primeiramente uma revisão bibliográfica acerca dos conceitos de agronegócio e segurança alimentar. Em seguida, como estudo de caso, selecionou-se a ABAG. Criada em 1993, a ABAG foi a primeira associação intersetorial do agronegócio no país, sendo responsável por iniciar a construção de uma retórica de legitimação para o setor. Nesse momento, a segurança alimentar passou a ser mobilizada, vide o lançamento, também em 1993, do livro “Segurança Alimentar: Uma Abordagem de Agribusiness”, o qual elencava a segurança alimentar como a principal responsabilidade social do agronegócio. O foco da análise empreendida foi a mobilização da segurança alimentar no Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), evento criado em 2002 e promovido anualmente pela ABAG, entendido como um espaço de consolidação e divulgação do discurso do setor. Analisou-se a íntegra da 21ª edição do CBA, disponível no canal de Youtube da associação. Realizado em 2022, o evento ocorreu em um contexto de aumento da insegurança alimentar no Brasil e no mundo e em ano de eleições significativas para o país, nas quais o debate sobre a fome esteve em evidência. Foram realizadas também entrevistas com o presidente da ABAG e duas integrantes do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Os resultados da análise concluem que o agronegócio brasileiro mobiliza a segurança alimentar em uma perspectiva global como forma de legitimar e angariar apoio político a seus pleitos. Focando na dimensão da produção para a garantia da segurança alimentar, o setor reforça a necessidade de aumento da produção agrícola brasileira para alimentar uma crescente população mundial, destacando a importância do comércio e das exportações brasileiras. Em um contexto de críticas ao aumento do desmatamento no Brasil no governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) e de restrições às exportações do país por parte principalmente da União Europeia, o setor mobiliza a segurança alimentar para justificar a necessidade de se abrirem novos mercados ao agronegócio brasileiro e a importância do setor para garantia do bem-estar mundial. O debate sobre acesso à alimentação, ainda que seja reconhecido, é desvinculado do setor, sendo definido como uma responsabilidade dos governos, através de políticas públicas de geração de renda e emprego. O agronegócio reconhece, portanto, o problema da insegurança alimentar, mas a mobiliza de forma a elencar o setor como responsável por sua solução, desassociando-se de suas causas.