Diante das rápidas transformações ambientais associadas ao Antropoceno, o declínio dos polinizadores emerge como um sinal de alerta acerca das condições ecológicas do presente. Com a simplificação biológica e padronização das paisagens, a polinização tem se transformado cada vez mais em uma atividade econômica, ou seja, em um serviço que deve ser organizado e ofertado pelos seres humanos e mediado pelo mercado. Nesse processo, as abelhas passam a ser incorporadas a arranjos mercantis voltados à prestação de serviços de polinização assistida. Colmeias são transportadas e instaladas em áreas agrícolas, percorrendo por vezes longas distâncias, de forma a suprir as demandas de polinização vinculadas, sobretudo, às grandes monoculturas empresariais. . Estabelecendo a polinização assistida como um elemento mediador das relações entre abelhas, humanos e a paisagem, esta dissertação tem como objetivo investigar as conexões que se estabelecem entre abelhas e humanos em arranjos de mercado que buscam instrumentalizar o trabalho destes insetos na polinização de cultivos agroindustriais. Inspirado nas investigações propostas por Anna Tsing, percorre-se assembleias em uma paisagem ampliada dos arranjos de polinização assistida. O trabalho busca conectar três planos distintos de análise: (i) as relações que se estabelecem entre a crise ecológica e o declínio dos polinizadores e como elas têm sido interpretadas, tanto pelos cientistas, como pelos demais atores envolvidos no debate público; (ii) a estruturação de um mercado de serviços de polinização, originalmente nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil; (iii) as práticas de polinização assistida presentes nas paisagens agrícolas formadas pelas grandes monoculturas de maçãs, sendo a maçã uma das principais culturas onde a polinização assistida já é uma realidade no Brasil. Para isso baseou-se em um esforço de revisão de literatura, análise de documentos, sites e depoimentos online, entrevistas semiestruturadas com cientistas ligados à biologia da polinização e com o responsável técnico de uma empresa de polinização assistida que ocupa uma posição relevante na construção do mercado de polinização no Brasil. A metodologia utilizada envolveu, ainda, observação participante e entrevistas a campo, com técnicos, extensionistas e produtores rurais ligados à cultura da maçã nos municípios de Vacaria (RS) e São Joaquim (SC). Verificou-se que existem conexões que possibilitam o surgimento da polinização assistida como um mercado, com ideias e práticas que circulam através de diferentes escalas, envolvendo um conjunto heterogêneo de atores, formas de expertise e dispositivos. As lógicas por vezes distintas, correndo em paralelo, muitas vezes se sobrepõem e se influenciam mutuamente na construção dos arranjos deste mercado. Este argumento é demonstrado principalmente através da análise das fricções estabelecidas entre as narrativas para construção desse mercado, envolvendo discursos científicos e iniciativas empresariais, o imaginário da plantation e a crise ecológica. Ressalta-se o fato que a orientação econômica radical e a objetificação das abelhas, destituindo-as de um valor intrínseco, compõem uma racionalidade que permite instrumentalizar o trabalho das abelhas. Atrelada a uma transformação simbólica, que reduz este inseto ao seu serviço como polinizador, a mercantilização da polinização ganha forma nos sistemas de polinização assistida analisados.