Esta pesquisa apresenta a narrativa de seis mulheres sobre sua atuação na política institucional em Mato Grosso do Sul, um campo ainda predominantemente masculinizado, marcado por misoginia e machismo. A análise desse ambiente revela as relações sociais conservadoras que o dominam. Essas mulheres integram um grupo de
treze prefeitas reeleitas no estado, entre 1982 e 2020, incluindo Edileuza Rocha (Rochedo), Marcela Lopes (Corguinho), Mara Caseiro (Eldorado), Maria Odeth dos Santos (Caracol), Marta Araújo (Eldorado) e Sandra Cassone (Itaquiraí). Vale destacar que as outras cinco prefeitas reeleitas não concederam entrevista para a pesquisa e
outras duas já são falecidas. As prefeitas reeleitas foram entrevistadas com base em um roteiro de perguntas
pré-elaboradas, mas abertas a modificações, o que não ocorreu. A dissertação é estruturada em três capítulos, além da conclusão. O primeiro capítulo apresenta uma análise teórica sobre a sub-representação feminina na política institucional ao longo da história do Brasil. O segundo capítulo aborda a correlação de forças na política institucional de Mato Grosso do Sul sob a ótica de gênero, discutindo a Lei de Cotas e o financiamento das campanhas de candidaturas femininas. O terceiro capítulo é dedicado às narrativas das prefeitas reeleitas, organizadas em categorias analíticas para facilitar o entendimento dos leitores. Em Mato Grosso do Sul, apenas 6% das prefeitas ocupam cargos no Executivo municipal. No contexto do último pleito de 2024, elas somam 67 mulheres, incluindo as reeleitas, que têm governado as cidades sul-mato-grossenses ao longo de 48 anos de história. Em nível nacional, as mulheres representam 12% das prefeitas eleitas nos municípios, concentrando-se principalmente em cidades de pequeno porte e governando para apenas 9% da população brasileira. Além disso, o Brasil ocupa uma das últimas posições no ranking de participação feminina no poder executivo, tanto entre os países latino-americanos quanto no cenário mundial, estando na 135ª colocação. O avanço da participação feminina nas prefeituras tem sido mais lento em comparação com outras esferas políticas. Vários fatores contribuem para esse cenário, como a falta de fiscalização eficaz da Lei de Cotas, a distribuição desigual do financiamento das campanhas eleitorais, a falta de compromisso dos partidos políticos com as candidaturas femininas e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para equilibrar os espaços públicos e privados, uma vez que a construção social ainda define o lugar da mulher na sociedade. Neste contexto, a pesquisa buscou ouvir essas mulheres como protagonistas e sujeitas ativas nesse campo político, entendendo as dinâmicas sociais que possibilitaram sua ascensão ao poder local. O estudo também identifica os capitais políticos utilizados como ferramentas eleitorais, além da influência de familiares na política estadual e/ou municipal, que muitas vezes servem como apoio estratégico para viabilizar suas candidaturas. As entrevistas coletadas revelam a persistência do machismo no campo político, o que impacta tanto a vida pessoal quanto a saúde das mulheres entrevistadas. As trajetórias das prefeitas são marcadas por opressões frequentemente naturalizadas, e os depoimentos indicam que os partidos políticos desempenham um papel crucial na
manutenção do status quo da desigualdade, frequentemente manipulando as cotas eleitorais para favorecer candidaturas laranjas ou predominantemente masculinas. Embora as prefeitas considerem a Lei de Cotas um avanço, há um consenso de que ela ainda precisa ser mais bem fiscalizada e, possivelmente, alterada para garantir sua real
eficácia. Os registros orais, utilizados como método de pesquisa, trazem à tona as experiências, lutas e vivências dessas mulheres, permitindo a construção de narrativas e a reinterpretação de eventos sob novas perspectivas. As histórias compartilhadas enriquecem a análise e oferecem registros valiosos de tempos passados, proporcionando
uma compreensão mais profunda das ações sociais e das transformações que podem surgir a partir delas, mantendo o compromisso com o futuro da sociedade e da humanidade.