Desde o século XVIII, com o advento da Revolução Industrial, é possível notar
uma crise ambiental resultante da relação do homem com a natureza, nem sempre
harmoniosa. A indústria química, até o século XX, corroborou com esse cenário, a
partir da concepção linear de ciência, e dos avanços tecnológicos e científicos que
eram feitos sem precedentes. Foi então que, após o acidente de Bophal, em 1984,
surgiu a necessidade de um olhar mais cauteloso sobre os processos químicos. Nesse
sentido, em 1998, Paul Anastas e John Warner apresentaram o conceito de Química
Verde (QV), que visa a apropriação de uma série de princípios para reduzir ou eliminar
tanto a geração quanto o uso de substâncias prejudiciais ao ser humano e ao meio
ambiente. Apesar de inicialmente ter enfoque industrial, é importante que os conceitos
da filosofia verde sejam disseminados para as diversas áreas do conhecimento,
incluindo o ensino básico. No entanto, raras são as Instituições de Ensino Superior
que incluem esse debate em cursos de licenciatura, refletindo em um ensino centrado
essencialmente em conteúdos científicos. É importante que professores formem
alunos críticos e capazes de entender sobre a relação da tecnologia e da ciência como
parte da sociedade, objetivo central da Abordagem CTS (Ciência, Tecnologia,
Sociedade). Com isso, esse trabalho teve como objetivo criar e aplicar, em dois anos
distintos, uma disciplina que trabalha conceitos de QV em um curso de Especialização
em Ensino de Química a partir da abordagem CTS. A construção da disciplina buscou
contemplar as referências primárias de QV e CTS para que os cursistas, ao final,
indicassem uma proposta de inserção no ensino básico, que foi posteriormente
categorizada. A partir do Estudo de Caso, pretendeu-se analisar como a disciplina
influencia na mudança de pensamento dos cursistas. Para tal, foram aplicadas 10
perguntas do PIEARCTS (Projeto Ibero-americano de Avaliação de Atitudes
Relacionadas com Ciência, Tecnologia e Sociedade) e um questionário sobre
conceitos de QV. Além disso, uma autoavaliação foi feita ao final da disciplina, bem
como uma entrevista um ano após o término dela a fim de saber se algo havia mudado
nas práticas docentes. Os resultados apontam que as médias finais do PIEARCTS
melhoraram em relação às iniciais nas duas aplicações, o que foi corroborado nas
autoavaliações, quando consideraram que houve mudança de crenças e atitudes
relacionadas à ciência e à tecnologia. Ademais, os conceitos de QV trazidos nos
questionários foram ampliados, e a maioria das propostas apresentou um viés
sociocientífico ou, ainda, crítico-reflexivo, evidenciando que se afastam do
conhecimento estritamente disciplinar. Após os questionários com cursistas egressos,
foi possível apontar que a disciplina impactou na prática docente deles, já que todos
os respondentes afirmaram se utilizar dos conceitos de QV a partir da abordagem
CTS, mesmo depois do fim dela. Dessa forma, o trabalho visa contribuir para a
consolidação desta área em diversos níveis de ensino, inclusive no básico, para que
mais estudantes sejam formados sob a ótica de uma educação sobre as relações
entre a Química, a tecnologia, a sociedade e o ambiente.